Cravo pro vilao, gongo pra comedia: como Park Sung-il pintou Meu Querido Nemesis em som

Base ocidental pra heroina, taepyeongso e gongo na comedia, cravo barroco pro vilao: o making-of musical de Park Sung-il em Meu Querido Nemesis — o mesmo compositor de Se a Vida te Der Tangerinas.

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Cravo pro vilao, gongo pra comedia: como Park Sung-il pintou Meu Querido Nemesis em som
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Olha, tenho uma teoria: dorama bom voce reconhece pelo enredo, mas dorama que gruda voce reconhece pelo som. E quando o mesmo nome aparece nos creditos de duas coisas TAO diferentes quanto a comedia maluca de Meu Querido Nemesis e o melodrama de decadas de Se a Vida te Der Tangerinas, eu paro tudo pra investigar. O nome e Park Sung-il (박성일), diretor musical das duas trilhas — e o jeito que ele trabalhou em Nemesis e cinema puro, vei. (Tranquilo: isso aqui e bastidor de musica, sem spoiler de roteiro.)

O metodo: compor assistindo a cena, do jeito que se faz no cinema

O que mais me chamou a atencao na entrevista de bastidores e que o Park Sung-il nao compos do jeito convencional de TV. Sabe o esquema tipico de dorama, em que o compositor entrega um pacote de faixas-tema e o time de pos encaixa onde der? Pois e, ele fez ao contrario: compos algumas faixas so depois de assistir a cenas-chave especificas, deixando a imagem ditar a musica. Isso e tecnica de trilha de cinema, nao de TV.

A imprensa coreana citou ate quais cenas serviram de gatilho: a da possessao e a do ataque de panico da protagonista Seo-ri. Ele viu o momento ja montado e so entao escreveu o som pra aquilo. Resultado: em vez de melodia generica jogada por cima, uma musica que respira no mesmo ritmo da atuacao da Lim Ji-yeon. E o detalhe que separa trilha boa de trilha esquecivel. Ajudou que o diretor Han Tae-seop foi descrito como obsessivo na pos-producao, pedindo ajuste fino de nuance mesmo no meio de gravacoes pesadas.

As paletas sonoras de Meu Querido Nemesis: uma cor de som pra cada alma

Aqui mora a parte mais genial. A premissa mistura uma vila da era Joseon, uma atriz do seculo 21 e um herdeiro chaebol gelado. Como traduzir isso em som sem virar bagunca? O Park resolveu pintando uma paleta sonora diferente pra cada personagem, pensada em termos de instrumentacao e textura. Olha o desenho:

  • A heroina (a faceta vila de Joseon): musica de base predominantemente ocidental, com o minimo de instrumentos tradicionais coreanos. Um toque tradicional aqui e ali pra lembrar a origem, sem pesar a mao.
  • A comedia (a faceta atrapalhada de Seo-ri): nas cenas comicas entram o taepyeongso (a charamela coreana, aquele sopro estridente e festeiro) e o gongo / kkwaenggwari. Som de festa popular coreana, escandaloso na medida — perfeito pra sublinhar o caos.
  • O antagonista (o herdeiro Cha Se-gye): cravo barroco (o harpsichord). Aquele som metalico e palaciano de musica antiga europeia, que serve de ponte entre o passado e o presente da historia.

Repara na inteligencia: ele inverteu a expectativa. A vila vinda do passado coreano nao ganha som tradicional pesado — ganha base ocidental. E o antagonista moderno e quem carrega o cravo, um instrumento de seculos atras. Esse cruzamento espelha o proprio enredo, em que passado e presente vivem se trocando. A musica nao so acompanha a historia: ela conta a historia por baixo.

E o resto da OST veio nesse capricho. Saiu no formato classico, single por single ao longo da exibicao, e o Park assinou a maioria dos temas vocais — incluindo a queridinha “Season of Us” (다시 돌아온 계절), cantada pelo Young K do DAY6, carro-chefe da trilha, alem de faixas com Onew (SHINee), CHEEZE e a estreante filipina Gwyn Dorado. Mas o coracao instrumental, a tal pintura por personagem, e dele.

O mesmo homem assinou as Tangerinas: Theme of Ae-sun e Theme of Gwan-sik

Agora a parte que me deixou de queixo caido quando liguei os pontos. O mesmo Park Sung-il que brincou de cravo e gongo na comedia de 2026 e o cara que assinou a direcao musical de Se a Vida te Der Tangerinas em 2025 — aquele melodrama de cinco decadas em Jeju, com IU e Park Bo-gum, que ganhou Melhor Drama no Baeksang e arrancou litros de lagrima do Brasil inteiro.

La a paleta nao podia ser mais diferente. A OST gigantesca saiu em quatro atos e fechou numa edicao combinada com 78 faixas. O Park assina o score e os dois temas que sao a espinha emocional da serie: “Theme of Ae-sun” e “Theme of Gwan-sik”, os instrumentais dos dois protagonistas, que evocam a Jeju dos anos 1950 onde a Ae-sun cresce. Tem ainda “Spring in a Heartbeat” e “If She Hadn’t Run That Day” na conta dele.

E a mesma cabeca nas duas: dar a cada figura um tema proprio. Em Tangerinas, Ae-sun e Gwan-sik tem cada um seu fio melodico; em Nemesis, cada personagem tem sua textura instrumental. So que o tom muda completamente — do lirico nostalgico de Jeju pro deboche barroco-festeiro de uma rom-com de fantasia. Mesmo artesao, dois mundos. E o que define um diretor musical de verdade: nao tem um som, tem um metodo.

Fica a dica de audicao comparada: poe o “Theme of Ae-sun” e logo depois imagina o cravo do Cha Se-gye — a mesma assinatura escrevendo em duas linguas. Meu Querido Nemesis e Se a Vida te Der Tangerinas estao completos na Netflix, com legenda e dublagem em PT-BR. Assiste prestando atencao no som e me conta se voce tambem passou a ouvir o cravo do vilao toda vez que ele entra em cena. Eu passei, vei.

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