IU atriz, nao cantora: o que tres papeis recentes revelam sobre o repertorio dela

Do drama de epoca a comedia romantica, mais um nao decisivo de bastidor: o que a trajetoria de IU como atriz revela sobre criterio, alcance e o degrau que ela ainda nao subiu.

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IU atriz, nao cantora: o que tres papeis recentes revelam sobre o repertorio dela
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Veja bem, minha filha: poucas trajetorias me dao tanto prazer de acompanhar quanto a de IU como atriz. E digo “como atriz” de proposito, porque essa e a briga de uma decada inteira. Lee Ji-eun (이지은), a artista por tras do nome IU, estreou na musica em 2008 e virou um dos maiores nomes do K-pop. So que o que ela construiu na atuacao merece ser lido como carreira de interprete, e nao como bico de cantora famosa. Ancorando esta leitura em dois titulos que tenho catalogados aqui — Se a Vida te Der Tangerinas (폭싹 속았수다, 2025) e A Coroa Perfeita (Perfect Crown, 2026) —, quero mostrar o que o repertorio dela ja revela e o que ainda esta por vir.

A cantora que virou atriz e o preconceito de plantao

Como eu sempre digo: idol que atua carrega um peso que ator de formacao nao conhece. A desconfianca vem de fabrica — “e so a cantora bonitinha”, “foi escalada pelo nome”. IU enfrenta isso desde Dream High (2011), seu comeco na TV. Mas o que silencia o preconceito de plantao nao e o carisma; e o trabalho. My Mister (2018), sob direcao de Kim Won-seok, foi o ponto em que a critica seria passou a tratar a atuacao dela como atuacao, e nao como extensao do palco. Desde entao ela alterna comedia e drama, cinema e TV, sem se acomodar num registro so — e e isso que separa a idol-atriz de ocasiao da atriz de verdade.

Leitura comparada: o registro dramatico contra o comico

E aqui o repertorio dela se mostra de corpo inteiro, e por isso escolhi esses dois titulos: vivem em planetas emocionais opostos. Em Tangerinas, IU entrega o registro dramatico mais exigente da carreira. Ela faz Oh Ae-sun jovem, a menina pobre e de lingua afiada de Jeju que sonha em ser poeta — e ainda acumula um segundo papel, o da filha adulta Yang Geum-myeong, narradora da historia. Pensem no desafio: e um papel compartilhado (a Ae-sun mais velha fica com Moon So-ri) e ao mesmo tempo um papel duplo (a propria Ae-sun e a filha). Construir duas mulheres distintas, de geracoes diferentes, sem que uma vire caricatura da outra, exige um controle de registro que muita atriz de carreira inteira nao tem. E Kim Won-seok, que ja a dirigira em My Mister, confia nela ao ponto de lhe entregar essa estrutura nas costas.

Do outro lado da prateleira esta A Coroa Perfeita, e o contraste e util. Aqui o registro e comico, de comedia romantica. Ela faz Seong Hui-ju, herdeira chaebol brilhante e poderosa, CEO da Castle Beauty, que propoe um casamento de fachada a um principe para apagar um estigma de origem. Reparem na mudanca de marcha: a contencao melancolica de Ae-sun da lugar ao timing afiado de uma comedia de salao, ao jogo de poder com sorriso de canto de boca. Sao dois musculos diferentes — drama de epoca pede respiro, silencio, peso; romcom pede precisao ritmica e leveza. Vale a honestidade de critica: Tangerinas e consenso quase absoluto (100% no Rotten Tomatoes, quatro Baeksang); A Coroa Perfeita dividiu a critica, com elogios ao visual e ressalvas a previsibilidade do roteiro. O material oscila — a entrega dela, mesmo assim, segura os dois barcos.

A recusa de Rainha das Lagrimas, como nota de bastidor

Tem uma decisao de carreira que diz mais sobre criterio do que qualquer atuacao. Em abril de 2022, a roteirista Park Ji-eun ofereceu a IU o papel feminino de Rainha das Lagrimas (눈물의 여왕, Queen of Tears) — a herdeira Hong Hae-in. E ela recusou. No dia seguinte, a proposta seguiu para Kim Soo-hyun, e o papel acabou indo para Kim Ji-won, formando uma das duplas mais comentadas de 2024. A serie virou um dos maiores fenomenos da Hallyu recente. E IU disse nao. Como eu sempre digo, ator nao se mede so pelo que aceita — se mede tambem pelo que recusa. Dizer nao a um projeto desse calibre, num genero (a romcom chaebol de alto orcamento) que so foi se confirmar de vez na carreira dela tres anos depois, com A Coroa Perfeita, e gestao de repertorio que separa quem persegue holofote de quem constroi filmografia.

O que ela ainda nao mostrou

E aqui entra a parte que mais me interessa: o que falta no mostruario. O repertorio recente cobre dois extremos — o melodrama de epoca e a comedia romantica —, com filmes pelo meio, como Broker (2022). Mas reparem no que ainda nao apareceu de forma central nesses dois titulos: a vilania, o registro de antagonista, o thriller de tensao pura. Hui-ju flerta com a frieza e o calculo de uma herdeira de poder, mas dentro da chave da comedia romantica; nao e o mesmo que uma vila de carteira assinada. Eu adoraria ver o que essa contencao toda — a mesma que faz a Ae-sun de Tangerinas doer sem grito — renderia num papel sem o colchao da simpatia. Uma personagem que o publico nao deveria amar. Esse, para mim, e o proximo degrau natural de quem ja provou drama e comedia no mesmo folego.

Escrevo isso como leitora veterana que aprendeu a confiar no criterio de uma atriz que recusou o fenomeno da temporada e esperou o projeto certo. O que IU ainda nao mostrou e exatamente o motivo pelo qual sigo abrindo cada estreia dela no dia um. Repertorio bom nao e o que ja se viu — e a certeza de que ainda tem pagina virando.

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