Bon Appetit, Vossa Majestade: quando a comida vira roteiro e o sageuk ganha acabamento de cinema

Um veterano de epicos da tvN dirigindo uma comedia gastronomica de viagem no tempo: fui ver se o acabamento de cinema de Jang Tae-yoo segura uma trama que parte da critica chamou de meio crua.

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Bon Appetit, Vossa Majestade: quando a comida vira roteiro e o sageuk ganha acabamento de cinema
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Tem uma coisa que me faz sentar para assistir antes mesmo de ler a sinopse: o nome de quem dirige. Quando vi que Bon Appetit, Vossa Majestade (폭군의 셰프, The Tyrant’s Chef) era de Jang Tae-yoo, o mesmo diretor de My Love from the Star, Deep Rooted Tree e Mr. Sunshine, eu franzi a testa. Um veterano de epicos e fantasias romanticas de prestigio assinando uma comedia gastronomica de viagem no tempo? Isso ou era um deslize de curriculo ou era a aposta mais inteligente da tvN em 2025. Depois dos 12 episodios, ja completos na Netflix com legenda E dublagem em portugues, posso dizer: foi a aposta inteligente. Mas com um “mas” que parte da critica resumiu numa palavra impiedosa — “meio cru”.

A premissa: cozinhar para sobreviver

A engenhoca narrativa esta no proprio titulo do web novel que originou tudo, Sobrevivendo como a Chef de Yeonsangun, de Park Kook-jae (o roteiro da serie e creditado ao coletivo “fGRD”). Yeon Ji-yeong (Im Yoona) e uma chef de alta gastronomia francesa que, no auge da carreira, depois de vencer um concurso internacional em Paris, e arremessada por um eclipse solar cerca de 500 anos ao passado, para a Joseon de um rei chamado Lee Heon (Lee Chae-min) — dono de um paladar “absoluto” e de fama de tirano. Para nao perder a cabeca, literalmente, ela aposta a vida na cozinha. “Cozinhar ou morrer” e um motor de tensao limpo, e a serie sabe disso: cada episodio e batizado como um prato (“Course Nº X”), montando a temporada como um menu degustacao — uma estrutura que respeita o espectador, e eu agradeco a clareza.

Fusao coreano-francesa e a fotografia da comida como dramaturgia

Aqui esta o que justifica o tal acabamento de cinema. A producao tratou a comida como personagem, nao como cenografia. A fusao coreano-francesa em cena — dos macarons coloridos a carne preparada em sous vide, do schnitzel improvisado com tecnica de “fritura floco de neve” a sopa de doenjang — e fotografada com um capricho que normalmente a gente so ve em filme de chef premiado. E a maquina por tras impressiona: a cozinha real (Sura-gan) foi filmada no Yongin Dae Jang Geum Park, os exteriores do palacio no Mungyeong Saejae, e o reencontro do rei com a chef a beira do rio no pavilhao Gosanjeong, em Andong — o mesmo que aparece em Mr. Sunshine e que, em outubro de 2025, foi oficialmente designado Sitio Cenico. Esse cuidado com locacao e luz e a assinatura de Jang Tae-yoo, e a trilha de Jeon Chang-yeop amarra o pacote. Dorama de comida costuma ser barato; este nao parece, e isso e elogio.

A atuacao de Im Yoona e Lee Chae-min

Yoona, do Girls’ Generation, e a alma da serie. Ela faz o timing comico funcionar e segura sozinha as cenas em que o roteiro patina — nao a toa levou Atriz do Ano (TV) no Asia Artist Awards 2025. Lee Chae-min, como o rei, foi a revelacao: ganhou Melhor Ator Revelacao no APAN Star Awards 2025. Vale o registro de bastidor que todo veterano de fandom guarda: o papel do rei seria de Park Sung-hoon, que saiu do projeto em janeiro de 2025 apos uma polemica nas redes, e Lee Chae-min entrou no lugar. A troca reacendeu debate sobre a diferenca de idade do casal (Yoona e mais velha). E aqui mora minha ressalva honesta: parte da critica achou a quimica “mais de irmaos do que de casal”. Eu nao fui tao dura, mas entendo — e um romance morno, que aquece devagar. Ainda assim, o reconhecimento veio: ambos foram indicados ao Baeksang Arts Awards 2026, a premiacao mais prestigiada da TV coreana.

O que o ritmo da viagem no tempo entrega e o que falta

Vamos ao que a maratona ensina. O arco de chegada e sobrevivencia (episodios 1 e 2) e impecavel, e a serie engata bem quando Ji-yeong vira chef-chefe e comecam as armadilhas da consorte Kang Mok-ju (Kang Han-na). O problema e o miolo: a critica apontou ritmo irregular, sequencias de culinaria longas demais e a sensacao de que o dorama e “so sobre comida”, ofuscando a trama de poder na corte. Concordo em parte: a fantasia (o livro magico que move o enredo) fica subaproveitada, e falta ousadia na mitologia. Mas os numeros nao mentem sobre o acerto popular: a audiencia foi do modesto 4,856% no episodio 1 ao pico de 17,107% no final, todos os 12 episodios lideraram seus horarios, e a serie ficou em #1 em 23 paises na Netflix, no Top 10 de 93.

Veredito

Meu veredito de quem ja viu sageuk demais: Bon Appetit, Vossa Majestade e comfort food de altissimo acabamento. Jang Tae-yoo entrega o cinema prometido na fotografia e nas locacoes, Yoona segura o timing e a comida e linda de doer. Nao espere profundidade historica nem um romance avassalador — espere um menu degustacao bem servido, com um miolo que pesa quando voce ja sabe onde vai dar. Para quem quer um dorama “gostoso de ver” sem peso emocional, e prato cheio; para o paladar que busca sageuk serio, vai parecer meio cru. Eu fiquei satisfeita — e a parte mais discutivel, as viradas das batalhas de cozinha e o desfecho, deixo atras da cortina, so para quem ja terminou.

Spoilers: mostre ou esconda todas as cortinas deste dorama — a gente lembra da sua escolha.
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