Se a Vida te Der Tangerinas: a obra-prima de Kim Won-seok que pede colo e cobra atenção

Kim Won-seok reencontra IU desde My Mister e entrega cinco décadas de amor em Jeju. Resenha profunda e honesta — com elogios merecidos e as ressalvas que ninguém te conta.

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Se a Vida te Der Tangerinas: a obra-prima de Kim Won-seok que pede colo e cobra atenção
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Veja bem, minha filha: eu já vi muita gente chamar dorama de “obra-prima” depois de um episódio e meio. Quando eu uso a palavra, é porque assisti inteiro, com caderno do lado. Se a Vida te Der Tangerinas (폭싹 속았수다, 2025, Netflix) é uma daquelas raras vezes em que o hype e a qualidade andam de mãos dadas. Dezesseis episódios, cinco décadas, dos anos 1950 aos 2000, e um casal que você acompanha da infância em Jeju aos cabelos brancos. O que me fez sentar para escrever, porém, foi o reencontro de Kim Won-seok com IU — quem viu My Mister (2018) sabe do que esse diretor é capaz quando confia numa atriz. Vamos por partes.

O tema: cinco décadas e um título em dialeto de Jeju

Comecemos pelo nome, que já é uma aula. O original, Pokssak Sogatsuda, não é coreano-padrão: é uma expressão do dialeto da Ilha de Jeju que significa, mais ou menos, “você se esforçou muito”, “obrigado por todo o seu trabalho”. A produção não traduziu ao pé da letra; escolheu uma versão de espírito, brincando com o ditado dos limões, mas trocando o limão pela tangerina, fruta-símbolo de Jeju. A história acompanha Ae-sun, menina pobre e de língua afiada, filha de uma mergulhadora haenyeo, que sonha em ser poeta numa Coreia que mal saíra da guerra, e Gwan-sik, calado e leal, que decide em silêncio dedicar a vida a fazê-la feliz. É um slice-of-life de época sobre pessoas comuns, pobreza, sonhos adiados e a herança afetiva entre gerações.

Roteiro e estrutura: a assinatura de Lim Sang-choon

O roteiro é de Lim Sang-choon, a mesma de When the Camellia Blooms (2019), que já lhe rendeu um Baeksang de Melhor Roteiro — e aqui ela repetiu a façanha. Quem acompanhou Camellia reconhece a marca: personagens humanos, mulheres que carregam o mundo nas costas, ternura que nunca escorrega para a pieguice fácil. A estrutura é o grande trunfo formal: 16 episódios em quatro volumes de quatro, cada um correspondendo poeticamente a uma estação e a uma fase da vida do casal — primavera, verão, outono e inverno, e o reencontro com a primavera. Tudo costurado pela narração da filha adulta, Geum-myeong. É ambicioso e, na maior parte do tempo, funciona lindamente. Guarde essa palavra: “na maior parte”.

Atuação: duas gerações, quatro pesos-pesados

Aqui o drama acerta de um jeito que poucos elencos conseguem. IU faz Ae-sun jovem e ainda acumula o papel da própria filha, Geum-myeong, narradora — um caso raro de papel compartilhado e duplo ao mesmo tempo. Park Bo-gum, que muitos lembram de Reply 1988, entrega o Gwan-sik jovem com uma contenção que dá inveja. Na meia-idade, a passagem de bastão é impecável: Moon So-ri — sim, a de Oasis, prêmio em Veneza — assume a Ae-sun madura, e Park Hae-joon (de The World of the Married, na quarta colaboração com Kim Won-seok) veste o Gwan-sik mais velho. Você acredita que é a mesma pessoa envelhecendo. E não me deixem esquecer Yeom Hye-ran como a mãe haenyeo e Choi Dae-hoon como o antagonista — ambos premiados no Baeksang, com toda a razão.

Direção e fotografia: Jeju como personagem

Kim Won-seok é dos meus diretores favoritos desde Signal e My Mister, e aqui tem orçamento à altura da ambição — cerca de 60 bilhões de wons, um dos K-dramas mais caros já feitos. E dá para ver na tela. Jeju não é cenário, é personagem: a Praia de Gimnyeong, os campos de cevada verde e flor de canola, a luz que muda com as estações, sob a direção de arte de Ryu Seong-hie. Um detalhe define o método do diretor: a célebre cena do abraço com choro alto, no episódio 3, não estava no roteiro. Segundo IU, surgiu entre os atores; o texto previa só “fungar e chorar”. Kim achou potente e manteve. Diretor grande é aquele que sabe quando sair da frente.

Trilha: a caminhada da meia-noite

A OST, dirigida por Park Sung-il, é monumental: saiu em quatro capítulos ao longo da exibição e culminou numa edição completa de 78 faixas. A joia da coroa é “Midnight Walk” (밤 산책), de d.ear, que ganha uma segunda versão gravada pela própria IU no Capítulo 3 — e levou o Best OST no Asian Pop Music Awards 2025. Os temas instrumentais de Park Sung-il (“Theme of Ae-sun”, “Theme of Gwan-sik”) evocam a Jeju dos anos 1950 sem grudar açúcar no ouvido. É trilha que serve à narrativa, não que a sequestra.

Veredito honesto, com ressalvas

Resenha de verdade não é só elogio. Tangerinas é, sim, uma obra-prima — 100% no Rotten Tomatoes, melhor K-drama do ano pela Time, quatro Baeksang incluindo Melhor Drama. Mas a mesma estrutura em mosaico que é seu maior acerto é também seu calcanhar: ao saltar décadas, alguns arcos secundários ficam apressados e o ritmo do meio pede paciência. É um drama que recompensa quem entrega atenção inteira e frustra quem quer assistir de olho no celular. Para a minha leitora veterana, isso é elogio; para quem chega novato no gênero, fica o aviso.

Abaixo eu entro nas viradas que sustentam minha leitura crítica — inclusive o final. Quem ainda não terminou, pare aqui, assista, e volte para a gente discutir.

Spoilers: mostre ou esconda todas as cortinas deste dorama — a gente lembra da sua escolha.
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